capítulo 8
O que é o Despertar?
"... lembre-se de que
as palavras podem indicar apenas dimensões da experiência que na verdade são simplesmente
indescritíveis por palavras. Uma analogia tradicional do budismo diz que as palavras
são como dedos apontando para a lua cheia. Se você parar nos dedos, talvez
nunca consiga admirar o magnífico espetáculo da lua no céu. "
Os
muitos aspectos da realização espiritual
Se você ler as histórias dos grandes místicos e sábios de
todo o mundo, descobrirá que há uma variedade estonteante de formas e dimensões
de experiências espirituais. Por exemplo:
ü certos
xamãs ameríndios entram em estados de transe, nos quais viajam a outras
dimensões para encontrar aliados e outras fontes de cura para os membros de sua
tribo;
ü Embora
essas experiências possam ter um impacto de transformação espiritual em uma
pessoa, elas não necessariamente proporcionam iluminação, de acordo com a
definição budista desse termo. De fato, a maioria das tradições budistas subestima
a importância de visões, vozes, poderes, energias e estados alterados de
consciência, alegando que todos esses fenômenos apenas desviam os seguidores do
verdadeiro objetivo do empreendimento espiritual, que é uma visão profunda
verdadeira e libertadora da natureza essencial da realidade.
ü A
lição básica do budismo sobre impermanência indica que mesmo as experiências
espirituais mais fortes aparecem e desaparecem como nuvens no céu. O objeto da
prática é chegar a uma verdade tão profunda e fundamental que não muda porque
não é uma experiência: é a natureza da própria realidade. Essa inegável e
imutável consciência é chamada Despertar.
Um dos principais ensinamentos de Buda são as
Quatro Nobres Verdades nas quais ele explica a natureza e a causa do sofrimento
e designa um "Caminho Nobre Óctuplo" para eliminá-lo.
Esse caminho culmina no Despertar, no qual todo
sentimento de separação desaparece e, com ele, emoções e estados mentais
negativos, baseados em ilusões de separação, como ganância, raiva, ciúme,
inveja e medo. (As várias tradições budistas têm diferenças de opinião sobre o
que é revelado quando esse sentimento de separação desaparece; falaremos disso
um pouco mais tarde.)
O Buda também ensinou que todos os seres têm o mesmo potencial
de iluminação que ele mesmo. Em vez de se considerar um caso especial e
superior, o Buda enfatizou que ele era apenas um ser humano com as mesmas
tendências internas e as mesmas tentações que os outros. Uma das verdades de que
ele tomou conhecimento sob a árvore Bodhi foi essa igualdade espiritual
essencial. A única coisa que distingue as pessoas comuns do Buda, ele ensinou,
são visões distorcidas, apego e sentimentos de aversão que escondem a verdade
de nós. Todas as tradições do budismo, sem dúvida, concordariam com as
explicações básicas para a iluminação que descrevemos atrás - afinal, essas
explicações vêm dos primeiros discursos de Buda, aqueles que são universalmente
aceitos . Porém, as tradições diferem no conteúdo do Despertar e nas maneiras
específicas de obtê-lo.
Parece incrível, mas as respostas a essas perguntas
realmente mudaram ao longo dos séculos, à medida que o budismo evoluía. A
maioria das tradições acredita que sua versão do Iluminismo é exatamente a
mesma do Buda. Alguns até afirmam que a deles é a única autêntica - aquela
consciência mais profunda e secreta que o Buda nunca ousou revelar em sua vida.
Outros
comentaristas insistem que as realizações dos mestres budistas mais recentes
transportaram a prática e a iluminação para dimensões que o próprio Buda nunca
antecipou. Seja qual for a versão correta, o certo é que as tradições diferem
significativamente.
No restante deste capítulo, oferecemos uma
breve apresentação do Despertar a partir das respectivas perspectivas de três
tradições diferentes: Theravada, Vajrayana e Zen.
Embora essa visão geral certamente não possa cobrir toda
concepção de iluminação (mesmo que apenas dentro do próprio budismo), ela abrange o essencial, pelo menos o máximo possível de
palavras. Por fim, e com base nisso, todas as tradições concordam, o Iluminismo
supera até o entendimento intelectual mais refinado e simplesmente não pode ser
entendido dentro de nossa estrutura conceitual usual.
Ao ler as seções a
seguir, lembre-se desse velho ditado budista: quando você está com fome, apenas
olhar bolos em uma padaria não é suficiente para encher o estômago. Você pode vê-los
o quanto quiser, durante todo o dia, mas não satisfará sua fome até que realmente os coma. Da mesma maneira, você
poderá ler dezenas de livros sobre o Despertar, mas não entenderá realmente do
que estamos falando até conseguir ter uma ideia da experiência em si.
Isso é um convite para entrar no budismo? - Absolutamente!
O nirvana
do Theravada
A
tradição Theravada baseia seus ensinamentos e suas práticas no cânon Pali, uma
coleção de discursos do Buda (os suttas, em Pali) que foram preservados por
memorização por monges que estavam na plateia e decoraram essas pregações, para
os transmitir oralmente a muitas gerações.
Finalmente, eles foram escritos, mais de quatro séculos
após a morte do Buda. (Para alguém que tem dificuldade em lembrar até alguns
números de telefone, essas habilidades de memorização estão além da
compreensão.) Como esses ensinamentos podem ser diretamente atribuídos às
palavras do Buda histórico, alguns apoiadores da tradição theravada afirmam que
eles representam o budismo de origem, ou seja, o budismo que realmente ensinou
o Iluminado, que pretendia que fosse praticado
e entendido.Por isso muitas tradições
consultam o cânone Pali, pois o consideram uma fonte confiável das primeiras
visões profundas do Buda.
A tradição Theravada explica um caminho de prática e
conscientização que leva o seguidor a quatro estágios do Despertar, que
culminam no nirvana (nibbana em Pali), ou seja, a libertação completa do
sofrimento.
O caminho em si consiste em três aspectos ou treinamentos:
- conduta ética (disciplina moral),
- meditação (disciplina mental) e
- visão profunda (sabedoria).
Definição de nirvana
Como o
Buda considerava a sede (ou seja, a luxúria, o desejo) e o apego como duas das
raízes de todo sofrimento, ele frequentemente definia o nirvana como a saciedade
da sede ou a extirpação do desejo.
O
termo nirvana significa literalmente "respirar", “soprar” e se refere
à chama do desejo que nos faz renascer indefinidamente, nós, seres não-iluminados.
Quando você alcança o nirvana, apaga essa chama e se liberta de toda
negatividade. Não apenas a sede e o apego não existem mais, mas o ódio, a raiva
e a ignorância também desaparecem à medida que o senso do eu-separado se
dissolve. Só porque os termos usados para denotar o nirvana enfatizam a
ausência de certas qualidades indesejáveis não significa que o próprio
nirvana seja negativo. Esses termos aparentemente negativos mostram uma verdade
incondicional que vai além da linguagem e não pode ser descrita em palavras
precisas. Em sua sabedoria, o Buda percebeu que termos positivos, que parecem
descrever um estado limitado, provavelmente seriam mais enganosos do que úteis,
porque o nirvana não é um estado e também não tem. limites.
Na
tradição Theravada, o nirvana é considerado a verdade absoluta, a total
consciência das coisas como elas são: tudo está em constante mudança e não
possui uma essência indestrutível permanente, ou seja, nada de "eu"
(o atman do hinduísmo). Quando a ilusão de um eu separado é
completamente
dissolvido, apenas o nirvana permanece. Também não há mais a tendência de se
referir ou proteger um eu separado, porque fica claro que esse eu nunca
existiu, exceto na forma de uma série de pensamentos e sentimentos acorrentados
um após o outro. Também não há a menor insatisfação, porque todos os vestígios
de sede e desejo desapareceram. Se o nirvana tem um sentimento ou tom
específico, geralmente é retratado como tranquilidade, contentamento e
felicidade inabaláveis.
Então,
isso tenta você?
Os quatro estágios no caminho para o nirvana
Ao
guiar seus discípulos durante os quarenta e cinco anos de sua vida dedicados a
seus ensinamentos, o Buda distinguiu quatro níveis ou estágios distintos de
realização, cada um marcado por uma profunda experiência de visão direta da
ausência de si, seguida por certas mudanças nas concepções e comportamento. A
experiência geralmente ocorre durante intensa meditação, quando a atenção se
concentra e segue um estudo aprofundado e a compreensão das verdades básicas do
budismo (especialmente em relação às três características da existência: o não-eu, a impermanência e a insatisfação). A lista a
seguir explica os quatro estágios distintos do seguidor no caminho para o
nirvana.
"Quem
entrou na corrente":
- a
primeira visão direta e profunda do não-eu geralmente é a mais forte, porque é
diferente de tudo que o seguidor já conhece. Por um momento que parece eterno
(e pode na realidade durar apenas um instante), não há ninguém, ou seja, não há
nenhum vestígio de um eu separado. Um grande sentimento de alívio, normalmente
acompanhado de alegria e felicidade, segue frequentemente essa experiência:
finalmente, ele teve a visão profunda que procura há tanto tempo. Finalmente,
ele "entrou no fluxo" de realização. Quando você chega a esse
estágio, nunca mais pode acreditar que é verdadeiramente um eu separado, que
vive dentro de sua cabeça e olha através de seus olhos. Sua experiência
eliminará para sempre essa ilusão. Quando você olha para dentro, não poderá
encontrá-lo em lugar nenhum. Na vida cotidiana, no entanto, você ainda pode se
sentir como um corpo separado e pode ser atormentado pela ganância, raiva,
ignorância e vários outros sentimentos e hábitos negativos. Felizmente, o
estágio de quem entrou na corrente também traz confiança e compromisso
inabaláveis ao caminho espiritual budista, e, portanto, você será motivado a
continuar aprofundando e refinando sua consciência.
"Aquele
que volta uma vez":
- depois
de entrar na corrente, a prática do seguidor é projetada de tal maneira que ele
se lembre do não-eu, assim como presta atenção às maneiras pelas quais ele
ainda se apega a certas coisas e a sua resistência à vida à medida que se
desenrola. Depois de um tempo (geralmente anos de prática diligente), durante
os quais a concentração se torna mais forte e a mente se torna ainda mais
serena, ele tem uma segunda visão direta direta do não-eu. (Lembre-se de que
uma coisa é conhecer esse fenômeno na forma de um conceito ou uma memória, mas
experimentá-lo diretamente, além do intelecto, é outra, totalmente diferente.) Este
olhar profundo (essencialmente o mesmo que o primeiro, mas ainda mais forte e
mais claro) gera uma redução significativa no apego, na aversão e no sofrimento
que acompanham esses estados de espírito. Por exemplo, irritações ou
preferências ocasionais substituem o ódio e a ganância, que não dominam mais
quem volta apenas uma vez. Quem chegar a esse estágio terá apenas um
renascimento antes de estar totalmente acordado, daí o nome.
"Aquele
que nunca volta":
- após
a experiência que sinaliza a entrada nesse estágio, todos os piores
aborrecimentos, como ódio, ganância, ciúme e ignorância, caem completamente,
mas ainda há um traço de senso de si (um "eu" ) e, com ele, o menor
traço de agitação e insatisfação também permanece na área. A experiência da visão
profunda em si raramente é acompanhada de emoção ou excitação, apenas
reconhecemos o que vimos duas vezes antes. Aqueles que nunca voltam
"parecem extremamente felizes, pacíficos e sem o menor desejo, mas ainda
mostram uma preferência sutil por experiências positivas e não negativas.
O
arhat:
- Nesse ponto, o caminho produz seu fruto
final, que é o nirvana: todos os traços residuais de um eu separado desaparecem
para sempre. Comparamos essa experiência, frequentemente acompanhada de uma
felicidade inimaginável, a mergulhar nas profundezas de uma nuvem para aí
desaparecer. Quando você chegar a esse estágio, as situações da vida não terão
mais influência sobre você; experiências positivas ou negativas não causarão a
menor sede ou insatisfação. Como o Buda disse, tudo o que precisava ser feito
foi feito. Não há mais nada a alcançar. Você chegou ao fim da trilha e não é
mais necessário renascer.
O
surgimento de duas grandes tradições de sabedoria
À medida que o budismo se desenvolvia ao longo dos
séculos, surgiram várias escolas, que diferiam na maneira como delineavam o
caminho da iluminação e como entendiam o propósito do mesmo caminho.
A tradição mahayana ("Veículo Grande"), que deu
origem a várias escolas ainda populares hoje em dia, transformou a experiência
da visão do não-eu (anatman em Sânscrito) na experiência da visão da vacuidade
(vazio). A ideia de vazio é um pouco mais abstrata do que o conceito do não-eu
e mais difícil de explicar em palavras. Mas continue lendo, você provavelmente
terá uma boa ideia do que significa vazio antes de terminarmos nossas
explicações! Os dois principais ramos do Mahayana entendem o vazio (ou
realidade última) de duas maneiras bem diferentes. A escola Madhyamika (termo
em sânscrito que significa "doutrina do meio") se recusou a afirmar
qualquer coisa sobre a realidade suprema. Pelo contrário, seus apoiadores
optaram por refutar e questionar quaisquer afirmações positivas feitas por
outras escolas. O resultado deixou os seguidores sem nenhuma crença ou ponto de
vista a que se agarrar, o que efetivamente lhes ‘puxou o tapete’ sob sua mente
conceitual (intelecto) e os forçou a, nas palavras do grande texto mahayana que
é o Sutra do Diamante, "cultivar o espírito que não mora em lugar
nenhum", o vasto, quente e desapegado espírito do Despertar.
Em contraste, a escola Yogachara (termo em sânscrito para
o "caminho da ioga") alegou que tudo é apenas espírito ou
consciência. (Essa visão está por trás do outro nome desta escola, Chittamatra,
ou ‘Consciência. Os grandes mestres do Yogachara ensinaram que a consciência é
a essência ou espírito que inspira e anima o mundo material, e que podemos
experimentá-lo diretamente em meditação profunda.
Em
última análise, de fato, não há separação entre o espírito do adepto e o mundo
exterior - o interior e o exterior são inseparáveis.
Da união das escolas Madhyamika e Yogachara
vieram os dois grandes representantes da tradição Mahayana ("Grande Veículo"),
Vajrayana e Zen. Ao longo dos séculos, muitos mestres do Zen e do Vajrayana
perceberam e ensinaram que "a consciência sozinha" e o
"vazio" são apenas palavras diferentes que designam a mesma realidade
indivisível e não dual. (A propósito, se alguns desses conceitos parecerem
abstratos demais para você, não se preocupe, eles devem ficar mais claros nas
seções a seguir. E pode ser útil lembrar que a compreensão do entendimento de
vazio é o ponto culminante do caminho do budismo mahayana e pode levar anos
para chegar lá!)
A consciência da pureza essencial do espírito
no Vajrayana
A
tradição vajrayana (ou tântrica) do budismo, que começou na Índia e floresce no
Tibete, mantém a noção básica de não-eu e a desenvolve. Depois de olhar
profundamente em seu coração e mente e
descobrir a verdade do não-eu, você naturalmente se abre para uma consciência
mais profunda da natureza da mente (ou consciência), que é pura, vasta,
luminosa, clara, impossível de localizar, ilusória, alertada e essencialmente
não-dual. O termo "não-dual" significa simplesmente que o sujeito e o
objeto, a matéria e a mente "não são dois", ou seja, embora sejam
diferentes no cotidiano, são inseparáveis e são um no nível da essência (esta
é a "dupla verdade"). Por exemplo, você e o livro à sua frente são
obviamente diferentes, mas são essencialmente expressões de um todo
inseparável. Não espere que agora expliquemos isso, - essa unidade - com
palavras que a mente possa entender, embora místicos e poetas tenham tentado
isso há milhares de anos. Se você quiser saber mais, precisará fazer isso
sozinho. A natureza do espírito não é apenas fundamentalmente pura, radiante e
consciente, mas também se manifesta espontaneamente e em todos os momentos como
uma atividade de compaixão pelo bem de todos os seres. Embora o pensamento
conceitual não possa compreender a natureza da mente, é possível tornar-se
consciente desse espírito da natureza (como o não-eu) através da meditação em
uma série de experiências cada vez mais profundas que culminam na tomada de
consciência plena, que é o estado de
Buda. No Vajrayana, o caminho para a iluminação completa começa com o cultivo
intensivo de qualidades positivas, como bondade e compaixão, e depois prossegue
com o desenvolvimento de vários níveis de visão profunda na natureza da mente.
Os adeptos são ensinados a visualizar a si mesmos como a própria personificação
do Despertar, e depois a meditar em seu estado inerente de Despertar, isto é,
na natureza de Buda (Estado de Buda).
Em
geral, seguir o caminho do início ao fim requer um instrutor licenciado,
prática árdua, compromisso sincero e muitos retiros intensivos.
Uma abordagem direta da realização
Além das práticas de visualização, o Vajrayana oferece
uma rota mais direta para a iluminação conhecida como Mahamudra-Dzogchen,
considerado o ensino mais alto da tradição tibetana.
Dzogchen significa "grande perfeição" em
tibetano, e Mahamudra é um termo sânscrito que significa "grande
selo".
Esses
dois termos se referem ao conhecimento de que tudo já está perfeito como está.
Essas duas abordagens evoluíram separadamente em duas escolas separadas, mas
geralmente são consideradas duas expressões ligeiramente diferentes da mesma
consciência não dual, vista atrás. Tradicionalmente, apenas os seguidores que
concluíram anos de prática preliminar se qualificaram para aprender
MahamudraDzogchen, mas hoje no Ocidente, qualquer pessoa sincera e motivada o suficiente para
participar de um retiro pode explorar essa abordagem da iluminação.
No Dzogchen, os instrutores fornecem a seus
discípulos uma introdução direta à natureza do espírito.
Os discípulos tentam integrar esse ensino à meditação e à
vida cotidiana. O objetivo é incorporar essa consciência até que a separação
entre meditação e não-meditação se rompa e a mente esteja continuamente
consciente de sua própria natureza inerente em cada situação. Em Mahamudra, os
seguidores primeiro aprendem a acalmar a mente e depois usam a calma assim
obtida como base para explorar mais profundamente sua natureza. Quando a mente reconhece
sua própria natureza, os seguidores repousam o máximo possível nessa natureza
da mente. (Não nos pergunte o que "repousa" significa aqui, pois esse
conceito, como muitos outros neste capítulo, escapa às palavras.) Embora a
abordagem de MahamudraDzogchen possa ser considerada direta, seu domínio é
extremamente difícil e pode exigir uma vida, no mínimo.
Entenda o que é a iluminação completa de um
Buda
A tradição Theravada considera que o objetivo da prática
espiritual, do qual o arhat dá o
exemplo, pode ser perfeitamente alcançado nesta vida por qualquer seguidor
sincero, seja quem for.
Na época do Buda, muitos discípulos chegaram à plena
consciência e se tornaram arhats reconhecidos, o que significa que a
consciência do não-eu era essencialmente a mesma do Buda. Na tradição
Vajrayana, por outro lado, alcançar o estado de Buda parece ser um ideal
superior.
Aqueles que estão totalmente despertos experimentam o fim
de todo desejo e todas as outras emoções negativas, mas esses seres realizados
também exibem "dez milhões" de qualidades benéficas, incluindo amor e
compaixão ilimitados, sabedoria infinita que tudo vê, constante atividade despertada
para o bem de todos os seres, e a capacidade de acelerar o progresso de outros
no caminho da iluminação. O corpo de um
ser plenamente realizado possui trinta e duas marcas principais e oitenta
marcas menores de Buda, características reconhecidas em toda a Ásia budista.
Escusado será dizer que muitos devotos (especialmente no
nível de iniciantes da prática) talvez considerem um estágio tão avançado de
realização como um sonho distante e inacessível.
Sem dúvida, esse sentimento pode ser exacerbado pelas
muitas histórias de sábios excepcionais que meditam durante anos em cavernas
nas montanhas e alcançam não apenas clareza de diamante e compaixão
inesgotável, mas também muitos poderes sobrenaturais.
No entanto, os diligentes seguidores de Vajrayana
gradualmente veem seus esforços trazer-lhes uma maior compaixão, clareza de
espírito, tranquilidade e ausência de medo, além de um reconhecimento mais
profundo e duradouro da natureza do espírito.
Além
disso, o Vajrayana afirma que qualquer um tem o potencial de atingir o estado
de Buda nesta vida, aplicando os métodos poderosos que ele fornece.
Tão puro quanto a neve virgem
A seguinte história Zen foi contada e recontada geração
após geração. Ela está incluída no Sutra da plataforma do sexto patriarca, a
fim de ilustrar a distinção entre uma visão parcial e progressiva da consciência
e a visão mais completa dos grandes mestres do Zen, para quem o espírito é
fundamentalmente puro e, portanto, não precisa ser purificado por meio de
diferentes métodos e práticas.
O quinto Patriarca de Chan (Zen) na China, Hung-jen,
reuniu seus monges e pediu a todos que escrevessem em alguns versos sua
compreensão pessoal da verdadeira natureza da realidade (também chamada natureza
de Buda).
Ele prometeu que, se encontrasse um deles cuja sabedoria
fosse clara, faria dele o sexto patriarca de sua linhagem do Dharma, ou seja,
seu sucessor. Naquela noite, o monge principal deu um passo à frente e escreveu
os seguintes versos na parede do mosteiro:
"O
corpo é a árvore Bodhi (despertar).
O espírito é como um espelho brilhante em seu
apoio.
Portanto, devemos nos esforçar
constantemente para limpá-lo,
para que o pó não se deposite ali.
Quando o quinto patriarca leu esses versículos, ele sabia
que eles demonstravam uma apreciação relativa do valor da prática, mas também
revelavam claramente que seu autor não havia entrado na porta da consciência –
e é o que ele diz ao monge principal.
Em público, porém, ele elogiou os versículos e os
declarou dignos de estudo.
Vários dias depois, um jovem analfabeto que trabalhava na
cozinha e debulhava arroz, ouviu alguém recitar os versos e pediu para ser
levado para o mural onde estavam escritos. Lá, ele pediu que alguém escrevesse
os seguintes versículos:
"Originalmente, não há árvore do despertar,
e o espelho brilhante não tem suporte,
pois a natureza de Buda
é sempre pura e imaculada.
Onde o pó adere?
Em outras palavras, sua natureza fundamental não precisa
ser polida pela prática espiritual, porque nunca foi manchada, nem por um único
instante. Quando o quinto patriarca leu esses versículos, sabia que havia
encontrado seu sucessor. Embora o jovem noviço não soubesse ler nem escrever,
Hung-jen reconheceu que era já iluminado e fez dele o sexto patriarca de Chan.
O Zen prossegue em sentido inverso ao de
Theravada
O Zen adota uma abordagem diferente em
relação a Theravada e Vajrayana. Em vez
de destacar um caminho progressivo para um alto ideal espiritual, os grandes mestres
do Zen ensinam que a iluminação completa está sempre disponível aqui e agora -
ou seja, o tempo todo - e que isso pode ser feito viva diretamente como uma
súbita explosão de visão profunda que é chamada em japonês kensho ou satori.
De fato, algumas escolas de Zen chegam ao ponto de
remover qualquer caráter excepcional da experiência da própria iluminação e
ensinam que a prática sincera da meditação sentada (zazen em japonês) ou a
prática sincera em não importa qual
situação seja o Despertar.
A tradição zen está repleta de histórias de grandes
mestres que comparam o seu despertar com o de Shakyamuni e falam dele como se
ele fosse um de seus velhos amigos e colegas. Ao mesmo tempo, a iluminação
(embora ilusória) é considerada a consciência mais mundana daquilo que sempre
existiu. É por isso que, em muitos contos zen, os monges começaram a rir quando
finalmente "entenderam".
Os
seguidores Zen esclarecidos são conhecidos por seu engajamento muito concreto
(realista) em cada atividade e pelo fato de não exibirem vestígios de um estado
específico chamado "tomada de consciência".
Transmissão
direta de mestre a discípulo
Sem
dúvida, há o testemunho mais claro da atitude zen em relação ao Despertar nos
famosos versos do mestre chinês Linji:
"Uma transmissão especial fora das escrituras,
dirigida diretamente à mente humana,
sem nenhuma dependência de palavras ou
letras.
Veja a verdadeira natureza,
torne-se um Buda. "
Veja como os versículos acima abordam vários pontos essenciais, que desenvolvemos aqui:
Uma transmissão
especial fora das escrituras:
o Zen remonta a Mahakashyapa, um dos principais
discípulos de Buda que parece ter recebido a transmissão direta da
"essência espiritual" de seu mestre, aceitando uma flor com um
sorriso silencioso. Desde então, os mestres zen transmitiram
"diretamente" suas mentes iluminadas a seus discípulos, não por meio
de textos escritos, mas por ensinamentos secretos revelados de mente em mente
(ou, como o primeiro instrutor Zen de Stephan gostava de dizer "de uma mão
quente para outra"). No entanto, não é a própria iluminação que é
transmitida assim: deve inflamar-se em cada discípulo. O mestre então apenas
reconhece e certifica a iluminação.
Dirigido diretamente na mente humana: o mestre não
explica verdades intelectualmente abstratas. Pelo contrário, ele direciona a
atenção de seu discípulo para sua verdadeira natureza inata, que sempre esteve
presente, mas geralmente não é reconhecida.
Com a orientação do mestre, o discípulo acorda e percebe
que ele não é um eu separado e limitado, mas, pelo contrário, é a própria
consciência, ilusória, misteriosa, vasta e pura, também chamada natureza de
Buda.
Veja
a verdadeira natureza, torne-se um Buda:
Tendo tomado consciência de sua verdadeira natureza, o
discípulo agora vê com os olhos de um Buda e está na pele de um Buda. Não há
mais nenhuma distância entre a mente do Buda Shakyamuni e a do discípulo, nem
no tempo nem no espaço.
Os grandes mestres do Zen ensinam
inevitavelmente que a mente inclui toda a realidade, sem deixar nada de fora.
Esse mesmo corpo é o do Buda, esse mesmo espírito é o do Buda, e esse exato
momento é inerentemente completado e é perfeito como é. Nada precisa ser mudado
ou adicionado para tornar esse corpo, mente ou momento mais espiritual ou mais
sagrado do que já é - basta perceber a natureza não dual da realidade.
As
dez tabelas de adestramento de boi
Desde que as fases de adestramento de boi foram desenvolvidas
na China há mais de oito séculos, os discípulos zen as usaram como um mapa
confiável da jornada para ailuminação e os mestres zen usam-nas para instruir e
inspirar seus discípulos.
(Na Internet, por exemplo, você pode visitar e ver imagens dessas pinturas tradicionais
acompanhadas pelos comentários correspondentes)
Essas tabelas descrevem os estágios progressivos que o
seguidor do Zen toma no caminho. Eles começam com a busca pelo boi (isto é, a
verdadeira natureza do seguidor) e terminam com a libertação completa,
personificada pelo bodhisattva. Embora a primeira visão profunda direta, ou
kensho, ocorra na terceira imagem, muitos kensho adicionais ocorrem ao longo do
caminho até que o próprio kensho se torne olhos com uma visão clara e
desobstruída com a qual o seguidor pode ver a realidade a qualquer momento.
A lista
abaixo fornece uma breve descrição de cada tabela, seguida de uma explicação de
seu significado.
A
busca pelo boi: o ser humano vagueia na floresta com a
corda na mão. O boiadeiro busca satisfação real na vida, mas não a encontra nos
lugares banais habituais, como carreira, relacionamentos, família e objetos
materiais. Como ele ainda não foi informado sobre a possibilidade de realizar
sua verdadeira natureza, ele não sabe exatamente onde deve procurar.
A
visão das pegadas: os humanos seguem as pegadas do boi. Ele
foi apresentado ao ensino do Zen e pelo menos sabe onde procurar para encontrar
sua verdadeira natureza. Ele está na trilha da meditação, mas não viu o boi com
seus próprios olhos.
O
boi é visto: o ser humano vê os quartos traseiros do
boi. Ele teve sua primeira visão direta, ou kensho, finalmente! Agora, com
certeza, o boi de verdade está em toda parte e é expressa em tudo. Mas essa
consciência desliza rapidamente para o fundo e ele ainda está longe de fazer
dele seu companheiro constante.
Pegar o boi:
o ser humano segura o boi resistente amarrado por uma corda. O boiadeiro está
ciente de sua verdadeira natureza em todos os momentos e em todas as situações;
ele nunca se separou, nem por um momento. Mas sua mente continua turbulenta e
indisciplinada, e ele deve se concentrar para evitar se distrair.
O
treinamento do boi: o ser humano leva o boi dócil à corda.
Finalmente, a mente se acalma e todos os vestígios de dúvida desaparecem. O
vaqueiro é instalado em sua experiência da verdadeira natureza, a ponto de os
pensamentos não o distraírem, porque ele percebe que, como tudo o mais no
universo, ele é apenas uma expressão de sua natureza fundamental .
O
retorno nas costas do boi: o ser humano, que toca flauta,
senta-se nas costas do boi: agora ele e sua verdadeira natureza estão em total
harmonia, como um cavalo e seu cavaleiro. Não há mais necessidade de lutar para
resistir à tentação ou à distração porque ela está perfeitamente em paz, unida
indissoluvelmente à sua fonte essencial.
O
boi esquecido: o ser humano senta-se em sua cabana ao
nascer do sol. Finalmente, o boi da natureza real desapareceu porque o vaqueiro
a personifica completamente, sem separação. Esse boi era uma metáfora útil para
levar para casa. Em última análise, porém, o vaqueiro e a carne são um! Como
não há mais nada a procurar, o vaqueiro está perfeitamente à vontade, ele vive
a vida à medida que ela se desenrola. O eu e o boi se esqueceram: um círculo
vazio. Os últimos vestígios de um eu separado caíram e com eles os últimos
vestígios de consciência desapareceram.
Mesmo o pensamento "eu estou acordado" ou
"eu sou a personificação da natureza de Buda" não pode mais ocorrer.
O ser humano é então, simultaneamente, completamente normal e completamente
livre de qualquer apego e identificação.
O
retorno à fonte: natureza resplandecente sem o observador.
Depois de se fundir com sua fonte, o ser humano vê tudo em toda a sua
diversidade (dolorosa e agradável, bonita e feia) como a expressão perfeita
dessa fonte. Ele não precisa mais resistir ou mudar nada: ele é um com a vida,
tal qual ela se apresenta.
Entrando no mundo com mãos amigas: o feliz bodhisattva de barriga cheia com
uma bolsa sobre o ombro. Sem o menor traço de um autodespertar separado ou
possivelmente ser vítima de ilusões, a distinção entre os dois se dissolve em
uma atividade espontânea cheia de compaixão. Agora, o bodhisattva se move
livremente pelo mundo como a água através da água, sem a menor resistência,
respondendo alegremente às situações à medida que surgem, ajudando onde é
apropriado e com certeza trazendo o Despertar aos outros.
Os
pontos em comum da iluminação vistos pelas várias tradições budistas
A
experiência da iluminação, embora descrita de maneiras ligeiramente diferentes
e também abordada de maneiras um pouco diferentes, possui notáveis
semelhanças de uma tradição para outra.
O Despertar sempre sinaliza o fim da ilusão da
separação. (Observe que escrevemos ilusão porque o Buda ensina que, em vez de
remover a separação, percebemos que ela nunca começou a existir.) Se você é um
ser iluminado, não se identifica mais como alguém distinto, isolado dentro de
seu corpo ou de sua cabeça e confrontado com um mundo de objetos e pessoas
separados. Pelo contrário, você considera sua realidade como um todo contínuo e
interdependente, seja essa realidade chamada "não-eu",
"vazio", "natureza verdadeira", "espírito",
"consciência" ou "fluxo de fenômenos em constante mudança".
"
Em um
nível relativo, é claro, você conhece todas as diferenças entre seu corpo e o
de seus vizinhos, esquece suas chaves no carro, trancando-as no pior momento
possível, paga (ou esquece de pagar) suas contas, e
você beija seus filhos (ou outra pessoa) para lhes
desejar boa noite.
Em todas as tradições, o Despertar também inevitavelmente
provoca o fim de toda ganância, toda raiva, toda ignorância e todo medo, e o
nascimento da paz, alegria, bondade e compaixão inabalável e indescritível.
Embora essas qualidades do coração pareçam encontrar mais
eco na tradição mahayana (enquanto o Theravada parece enfatizar a eliminação de
defeitos), elas são sem dúvida a expressão da visão despertada que se torna dia
no momento da plena consciência – seja pelas dez mesas domesticadas do boi zen,
pelo estado completo de Buda do Vajrayana ou pelo nirvana do Theravada. (É
claro que os Theravada e os Mahayana incentivam os seguidores a cultivarem a
compaixão e outras qualidades do amor, como veremos adiane.)
O despertar, em cada tradição, envolve estar
completamente no mundo, mas não dentro de seu jogo (Veja como algumas pessoas
acordadas, como monges que vivem na floresta, estão menos "no mundo"
do que outras).) Nunca mais você poderá levar o jogo da vida a sério. Você já
percebeu a aparente solidez e a aparente
importância da vida material e de suas preocupações, e não está mais enredado
nela porque entende claramente a natureza vazia - quimérica, transitória ou
fundamentalmente perfeita - de tudo que está acontecendo.
Como o bodhisattva na décima mesa da busca pelo boi, você
avança na vida com um sorriso no rosto e um coração cheio de amor, oferecendo
sua ajuda onde for necessário e inspirando felicidade e liberdade aonde quer
que você vá.
Capítulo 8 finalizado em 17 de março de 2020,
Mojimirim,
15h45
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